sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

SEXUALIDADE EGIPCIA

É possível que os homens, que deixaram os testemunhos de que dispomos, se preocupassem em acentuar a sexualidade das mulheres para os seus próprios fins - que eram ao mesmo tempo religioso e de prazer - , mas não para a promoverem como força independente e subversiva. A sua atitude em relação à sexualidade era ambivalente. Nas histórias, a sedutora malvada é um tema comum e a poesia amorosa do Novo Império é freqüentemente escrita nas palavras da mulher ardente, neste caso sem os mesmos tons moralísticos. Embora as histórias tivessem elementos religiosos, ambas estas fontes dão-nos um ponto de vista secular sobre o assunto.


Em termos religiosos, no entanto, a sexualidade era importante devido à sua relação com a criação, e, por associação, com o renascimento e a vida para além da morte. Era também significativa para o caráter de algumas divindades - Hathor entre as deusas e Min entre os deuses. Num contexto funerário, as referência eróticas veladas nas cenas dos túmulos podiam ter dois objetivos: assegurar o renascimento na outra vida através da potência ou proporcionar ao morto uma existência agradável. As cenas de conteúdo erótico incluem algumas de caça nos pântanos, onde o morto é acompanhado pela mulher, vestida um tanto incongruentemente com o seu fato mais requintado, com uma pesada cabeleira e levando na mão dois símbolos de Hathor. As cabeleiras pesadas, em especial quando associadas à nudez, era, por vezes, sinais eróticos. Numa história do Novo Império a mulher malvada acusa o irmão do marido de tentar seduzi-la, informando ter-lhe ele dito:


"Vem, vamos passar uma hora deitados. Põe a tua cabeleira".


Temas como este são mais raros em períodos anteriores, sendo o melhor exemplo uma cena do túmulo de Mereruka, da 6ª dinastia, em Sakkara, onde o proprietário e a mulher estão sentados frente a frente numa cama e ela toca harpa para ele ouvir. Tal cena tinha, em parte, por finalidade proporcionar um ambiente erótico para o defundo no outro mundo. Uma fórmula mágica ou uma estatueta feminina colocadas num túmulo podiam ter a mesma finalidade, mas com uma conotação menos conjugal. Uma fórmula mágica do Médio Império dos Textos dos Sarcófagos tem este começo simples "A cópula de um homem na necrópole." Num plano mitológico, podem ver-se as mesmas preocupações no Livro dos Mortos, onde Osíris se queixa ao deus criador, Aton, de que após o fim do mundo "Já não haverá ali prazer [sexual]", ao que Aton responde:


"Dei transfiguração em vez de água, ar e prazer", considerados aqui três condições prévias da vida, "e paz de espírito em vez de pão e cerveja."


Existe apenas um documento obsceno de dimensão relativamente significativa, que data de finais do Novo Império. Este documento é constituído por um conjunto de desenhos em papiro, com pequenas legendas mostrando uma variedade de encontros sexuais entre um homem (ou talvez homens) gordo e devasso e uma mulher (ou mulheres) vestida apenas de cabeleira, colar, pulseiras e um cinto. O papiro contém igualmente esboços humorísticos de animais desempenhando papéis humanos - bem conhecido - , sugerindo que a parte obscena pode ser também humorística. Mais ou menos da mesma época há um caso de piritanismo, em que umas pinturas de dançarinas nuas e de mulheres sumariamente vestidas, num túmulo da 18ª dinastia, foram vestidas por um dono posterior. Nas habitações do período tardio encontram-se com freqüência objetos obscenos, sobretudo estatuetas de homens com enormes pênis, que existiram também mais tarde mas que se perderam quase todos devido à escassez de material em locais de habitação. Eram possivelmente fórmulas mágicas destinadas a aumentar a potência dos homens.

Se a potência era uma preocupação dos homens, numa altura em que a taxa de mortalidade era tão elevada, a fertilidade era inevitavelmente importante para as mulheres - bem como para os homens. Em todas as famílias, exceto nas mais ricas, os filhos eram de importância vital pela sua contribuição em trabalho, especialmente na agricultura, e, num outro nível, para assegurarem a continuidade da família, de que o traço mais óbvio era a prática comum de se pôr a um filho o nome do avô. Conhecem-se textos ginecológicos, incluindo receitas para perturbações reprodutivas, prognósticos de nascimento, contracepção e aborto, mas é pouco provável que quaisquer deles, exceto talvez os do aborto, fossem muito eficazes. Chegaram até nós, vindas de relicários de Hathor assim como de povoações e túmulos, numerosas pequenas figuras de gesso, representando mulheres cujas formas realçam os órgãos genitais. A explicação mais plausível para a sua existência é a de serem oferecidas pelas mulheres para a sua própria fertilidade. É de notar que não são conformes às normas de representação egípcias. É possível que sejam originárias de uma classe de população diferente da maioria das obras pictóricas ou que fossem consideradas como estando fora dos cânones por qualquer outra razão. Até aos templos modernos, a oferta de tais objetos era, possivelmente, um meio tão eficaz de ajudar à concepção de um filho como ir ao médico.


Referências Bibliográficas


P. W. PESTMAN, Marriage and Matrimonial Property in Ancient Egypt, Leiden, 1961;

S. WENIG, Die Frau im alten Agypten, Leipzig, 1967.

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