quarta-feira, 30 de abril de 2014

O amor eterno de uma sacerdotisa egípcia

Pode um amor durar por toda a eternidade? Os mais românticos, sem hesitar, dirão que sim. De certo modo, o artigo de hoje os apoiará, porque quantas histórias de amor podem sobreviver à passagem do tempo e serem lembradas por mais de 4 mil anos? Esse é o caso raro de Meretites e Kahai – sacerdotisa e cantor respectivamente – um casal que viveu seu amor nos longínquos tempos do Antigo Egito.


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Em 1966, uma equipe de arqueólogos que escavava na necrópole de Saqqara, a uns trinta quilômetros da cidade do Cairo, descobriu a tumba dos amantes; anos mais tarde, em 1971, suas conclusões foram publicadas em um livro que descrevia as características, as obras de arte e os artefatos do singular recinto funerário.

Entre as obras de arte estava um interessante relevo policromado que representava o casal apaixonado. Nele Meretites aparece descansando a mão sobre o ombro de Kahai e ambos se olham fixamente nos olhos.

O livro de 1971 foi publicado em preto e branco e as fotografias não refletiam toda a glória da câmara mortuária, especialmente no tocante ao relevo de Meretites e Kahai. Essa foi uma das razões para uma nova equipe de estudiosos retornar a Saqquara. Entre outros objetivos, eles queriam resgatar do esquecimento a história dos dois amantes.

Entre os pesquisadores que adentraram novamente na tumba, estava a arqueóloga Miral Lashien, membro do Centro Australiano de Egiptologia da Universidade Macquarie. Em  trabalho recente, Miral revela que depois de estudar o relevo e as inscrições do recinto, ela pode reconstruir em detalhes a vida do casal e de sua família.

Kahai atuou como cantor no palácio do faraó Niuserre, chegando a ocupar o cargo de "cantor inspetor". Ele também exerceu tarefas administrativas, razão pela qual viveu, com sua esposa e filhos junto à riqueza e o esplendor da corte egípcia. Pelo mesmo motivo, o  casal teve um sepultamento digno das pessoas mais importantes da época.

A arqueóloga australiana também explica que, graças ao exame do relevo em que estão representados os dois amantes, e que conserva parte de sua policromia, foi possível chegar a valiosas conclusões sobre a vida e o papel das mulheres no Antigo Egito.
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Vista do interior da tumba de Kahai e Meretites | © Effy Alexakis - Macquarie University Ancient Culture Research

O próprio relevo é bastante incomum, porque naqueles dias do Antigo Egito, representações artísticas com demonstrações de afeto, como a do casal se acariciando, eram extremamente raras. Além disso, Lashien explica que tanto o relevo como as outras formas de arte encontradas no interior do túmulo sugerem que as mulheres naqueles anos tinham um maior nível de igualdade do que acreditavam até agora os pesquisadores. A egiptóloga e seus colegas chegaram a esta conclusão guiados pelas obras de arte, nas quais as mulheres são representadas com a mesma frequência e de tamanho igual ao dos homens, o que indicaria o mesmo status.

Graças às inscrições deixadas no túmulo nós também aprendemos que, apesar de seu amor, Kahai e Meretites não escaparam de uma tragédia familiar. O casal viveu com a tristeza da morte de um de seus filhos, Nefer,  também cantor, que deixou  vários filhos pequenos e uma esposa grávida.
Quando os arqueólogos abriram a tumba em 1966, encontraram em seu interior restos humanos mumificados, porém é impossível afirmar que eles sejam do casal e sua família, que originalmente foram enterrados ali, pois essas tumbas eram muitas vezes reutilizadas pelos egípcios ao longo dos séculos. Contudo, Kahai e Meretites – cantor e sacerdotisa – conseguiram que a recordação de seu amor perdurasse por toda a eternidade, ou pelos menos, durante mais de quatro milênios.

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